O Curso Começa Amanhã

Por um período da minha vida, eu quis estudar zoologia, trabalhar com gorilas no Congo e ser a nova Dian Fossey. Mas a dança sempre gritou dentro de mim e, por fim, prestei vestibular e passei os últimos anos me dedicando a estudar e trabalhar com dança.

Minha mãe sempre falava que a gente, quando se dedica, acaba achando um jeito de trabalhar que une todas as coisas que a gente gosta, já que não somos feitos de uma coisa só. Mas os gorilas e a dança pareciam tão distantes… Segui meu caminho: me formei no Bacharelado em Dança pela UFRJ, comecei a trabalhar com a Lia Rodrigues e foi assim por alguns anos. A dança foi assunto principal da minha vida e a biologia foi sendo contemplada com alguns exoesqueletos de cigarra que eu encontrava no outono e algumas interações com macacos, sapos, insetos e passarinhos que eu cruzava por aí.

Um belo dia conheci a tal da Cultura do Movimento. Um pessoal que se movia bonito e de várias formas, que falava sobre habilidades e capacidades e que vinha com um papo de que seres humanos são generalistas. Eu entrei na onda, ainda não entendendo muito bem o que eu estava fazendo, mas querendo conquistar uma bendita flexão de braço que eu não tinha.

Eles cresciam enquanto comunidade e, dentre todos os assuntos que surgiam nos bate-papos, um deles era sobre alimentação. Na época, eu era vegana e comecei a ouvir palavras como “paleolítico”, “jejum”, “Homo sapiens”, “caçador-coletor” e “evolução”. Foi essa última palavra que me lembrou diretamente das aulas de biologia que eu tive com o professor Alexandre e as professoras Dedé e Marcinha no meu Ensino Médio. Lembrei de Darwin, um cara que eu sempre achei muito simpático, apesar de não tê-lo conhecido pessoalmente.

Então eu, como uma boa curiosa e que gosta de experimentar a vida, fiz a dieta paleolítica, o jejum intermitente (cheguei a fazer 24h), me nomeei diversas vezes de caçadora-coletora e revisitei o livro “Sapiens”, do Yuval Noah Harari, que conheci pelo Diego e que ganhei de presente do William.

O ano era 2021 e estávamos em plena criação da peça “Encantado”, com a Lia Rodrigues Cia de Danças. Eu estava VOANDO. Extremamente bem-disposta, bem-humorada, forte e constantemente interessada. Mas a vida é feita de ciclos e esse estado de super-humana não durou para sempre, mas a curiosidade pela tal evolução, ou melhor, pelo raciocínio evolutivo continuou. E aí, através do Vicente, eu conheci o livro “Movimentação e Evolução Humana”, do Pablo Santurbano. Lembro de ler o livro em uma das turnês com a Companhia e gerar alguns debates com meus amigos de trabalho (principalmente com o David). Eu me sentia mais apropriada das ideias evolutivas, que ainda eram aplicadas “de mim para mim”: como eu me alimentava, praticava, enxergava o mundo e o Movimento.

Até que enfim, chegou o dia de conhecer o Pablo ao vivo e a cores. Eu fiz a grande escolha na minha vida de fazer o curso FBA Movimentação I, criado e ministrado pelo autor daquele livro que me gerou tantas perguntas. Um curso voltado para profissionais do movimento, em sua maioria educadores físicos e fisioterapeutas. E eu, da dança.

Eu estudei anatomia, fisiologia e cinesiologia na faculdade (e era muito boa nessas disciplinas, por sinal), mas a falta de contato com nomes de músculos e afins me deixou esquecê-los. Também não tive disciplinas que me ensinaram exercícios físicos tradicionais, como “supino”. — “O que é supino?”, eu perguntei durante o curso. Mas, mesmo cheia de dúvidas e buracos de conhecimento, a curiosidade venceu o medo e a vergonha de não saber tais coisas que foram faladas pelo Pablo e pelos alunos, até porque, muitas vezes, eu percebi que sabia sem saber que eu sabia.

— “O curso começa amanhã”, diz o Pablo, no último minuto de aula, no domingo.

Amanhã? Mas o curso já foi nesse final de semana! Mas ele tinha razão: na segunda-feira seguinte, eu já tinha muitas ideias novas para trabalhar nas aulas de preparação corporal da Companhia! Não foi um curso, foi um divisor de águas. Tudo mudou.

Mas, novamente, a vida é de ciclos e os assuntos principais vão mudando. Fui lendo outros livros, falando sobre outras coisas, debatendo outros assuntos e tendo outras ideias. E aí, com uma certa constância, eu ouço a minha mãe falar: às vezes você estuda mais dança fora dela do que dentro dela. Hmmmmm…..

Só que o ano de 2026 chegou e eu me vi completamente imersa na dança, na música e na cultura popular brasileira como há muito tempo não estava. Minha vida era quase monotemática. Até que, em julho, Taoli me convidou para dar aulas de Movimento na Impulso durante os meses que eu estaria no Rio de Janeiro e eu aceitei. Voltei a me aproximar daquele povo que falava aquelas palavras que eu gostava de ouvir: raciocínio evolutivo.

E o Pablo voltou ao Rio de Janeiro, na Impulso, para dar novamente o curso que eu fiz em 2024. — “Galera, seria legal que nós, professores da Impulso, fizéssemos o curso juntos!”, disse o Iago. E, no caso, eu estava dentro do grupo “professores da Impulso”.

E o momento chegou: dias 29 e 30 de agosto eu refiz o curso FBA Movimentação I e eu não podia ter sido mais feliz. Era felicidade de transbordar, de não conseguir conter. Era felicidade por estar em contato com informações preciosas, com pessoas interessantes e queridas e produzindo perguntas das mais intrigantes na minha cabeça: — “mas, se o meteoro acabou com a vida na Terra e com os dinossauros, como os primatas sobreviveram?” — “como os mamíferos viraram terrestres e depois voltaram para a água e veio a baleia?” — “como os hominínios que viviam em florestas foram parar na savana?” — “como?”

Eu me conectei com aquela Valentina que assistia atentamente à aula de biologia sobre animais invertebrados e vertebrados, que queria fazer exercícios sobre genética e dissecar peixes no laboratório. Aquela Valentina que passava nos corredores da escola e admirava os quadros com as diferentes espécies de borboleta. Aquela Valentina que transformou a Dian Fossey e a Jane Goodall em suas heroínas pessoais.

Mas eu não sou mais aquela Valentina. E, para além dessa conexão, vieram insights. Insights sobre a minha atual e principal pesquisa em dança. Durante o final de semana, enquanto eu ouvia o Pablo falar da história dos humanos, eu lembrava do Mario de Andrade, dos cantos de trabalho, do Brincante de cultura popular, do meu workshop Comboiá. E o curso começa hoje: segunda-feira, dia 31 de agosto de 2026.